"NÃO DITO"...
(Opinião - Maio/2014).
Uma expressão muito comum em nosso idioma, fica o "dito pelo não dito"... é usada quando alguém quer se desculpar ou retificar alguma coisa que teria falado ou escrito. Na prática de escritor artesão, do alto da minha maioridade e acredito que da minha maturidade, estou optando pelo "não dito". Prefiro nada dizer sobre um assunto sem saber precisamente nem quem é o destinatário de minhas palavras e como as pessoas irão processar o "dito". Restringir-me somente ao essencial e com a devida prudência. Portanto, torci o ditado:
>>> fica o não dito pelo dito. Como é rico o silêncio! Principalmente para não nos inculcarem suspeitas de culpas infundadas.
O exemplo mais pungente do que digo é o linchamento recente de uma pessoa que foi apontada por um site na Internet como praticante de "magia negra" e que para isso sequestrava crianças. Morreu estúpida e inocentemente, já agora comprovado: essa mulher jamais esteve envolvida com o assunto. E não adianta mais o fica o dito pelo não dito. O que se diz é uma marca indelével que perdura por muito tempo com resultados, como os do exemplo, extremamente lamentáveis, "irreversíveis".
Esse também é o problema por que passa a nossa imprensa. Em busca da oportunidade da surpresa e do "furo" podem ser cometidas grandes atrocidades. Por certo já ouviram falar da "Santa Inquisição na Idade Média?" E do caso "Dreyfus" na França? A opinião pública foi contaminada por informações falaciosas. Quantos inocentes foram imolados em nome da justiça e de bons propósitos; quantos crimes foram cometidos em nome de Deus e da Liberdade! Simplesmente encobrindo objetivos escusos e muito preconceito.
Esse é um grande argumento, talvez o maior de todos, para ser contrário à ideia da "pena de morte". E nunca, jamais, em tempo algum, fazer justiça pelas próprias mãos ou através de milícias não acreditadas pela Justiça oficial e laica, embora nem ela tampouco se livre das injustiças.
Voltando à imprensa, observo que uma desgraça do seu cotidiano é o fantasma das pautas. Um jornal tem que completar um determinado número estipulado de páginas. Um noticiário radiofônico ou televisivo tem que preencher meia ou uma hora de duração. O resultado é a enxurrada de fatos e comentários, pura atividade de encher linguiça com coisas supérfluas.
Imagino um comentarista político, por exemplo, que tem de pingar todos os dias, ou de tantos em tantos dias, seu texto. Isso é campo fértil para se produzir uma enorme quantidade de palpiteiros, como tantos que abundam em nossos jornais, sem maiores conhecimentos de causa e visão histórica sobre o que comentam.
São comuns jornalistas que se especializam em economia sem o mínimo conhecimento básico de economia e, principalmente, de Economia Política. Um fato econômico pode dar margem a comentários contra, a favor ou muito pelo contrário, dependendo de como são comentados. Os jornalistas, logicamente, seguem a linha editorial do seu veículo.
Quando um acadêmico é abduzido pelas luzes das câmaras ou a glória de ter uma coluna pessoal num órgão da grande imprensa, é lógico que ele tem de "partilhar da ideologia do dono" e "funcionar como seu porta-voz" ou pelo menos não ir de encontro às posições do patrão.
As considerações que extrapolam a corrente principal do pensamento encontra guarida em publicações alternativas ou somente em livros que não são facilmente encontrados nesses megastores livrescos de nossos shoppings. Se os há, estão expostos muito além das gôndolas de novidades que enchem as entradas desses estabelecimentos.
O cronista dos costumes tem que inventar "casos" !!!! Talvez até com mais velocidade do que a própria vida produz casos interessantes dignos de registro. Tiro isso pela experiência pessoal de me comprometer inicialmente em escrever um texto de dez em dez dias. É o motivo porque resolvi, em nome da melhoria do conteúdo, se não for possível cumprir esse prazo, relaxar essa disciplina. Na esperança que os conteúdos melhorem.
O que mais vejo na imprensa diária é um rosário de crimes, acidentes, reportagens inúteis, que poderiam passar ao largo da matéria jornalística. Será que a imprensa estrangeira nos países mais adiantados (tirando os notórios tabloides especializados em sensacionalismos) noticia tantos acontecimentos dessa natureza?
Bom mesmo era aquele antigo, não sei se ainda existe, "Aviso aos Navegantes", das autoridades da Marinha. Se não tivesse nada a dizer, simplesmente o Aviso aos Navegantes registrava: "não há aviso aos navegantes". Mas isso, logicamente, não é possível para um negócio empresarial como é a maioria dos meios de comunicação que, além do mais, tem que refletir a voz do dono, como a antiga marca da "RCA Victor", estampada por um cão ouvindo espantado o megafone de uma vitrola (!!!!).
Tenho dito...
(Genserico Encarnação Júnior).
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