"NAVE/AVE PARTINDO"
(Prosa e verso/Prosa em verso/Verso em
prosa/Verso e Prosa: Proesia !!!! - Junho/2014).
Adquiri, numa loja de decoração, uma gravura com o nome “Nave/ave partindo”, modernamente emoldurada. Um desenho do qual emanava uma explosão de vários tons de amarelo, a irradiar forte luminosidade, que eu sempre associei à luz solar.
Indistintamente, a simbolizar uma ave ou uma nave, em processo de alçar voo ou de decolar. Um corpo central volumoso ladeado por asas abertas, parcialmente expostas que ultrapassam os limites laterais do quadro.
Várias camadas de amarelo, do mais vivo ao mais pálido, quase branco, sugerem o movimento nervoso e contínuo do esforço de alçar-se ao espaço num bater de asas. No caso da espaçonave sente-se a propulsão de turbinas impelindo-a ao alto na sôfrega luta para vencer a gravidade terrestre. Logo abaixo do corpo central um contrapeso pendular aumenta a necessidade do esforço e garante a manutenção do equilíbrio necessário.
Correm em direção contrária ao observador, desse para dentro do quadro, dirigindo-se a uma pequena estrela na parte superior do quadro, longínqua, bem ao alto, simbolizando uma quimera qualquer.
Imagina-se que, nos instantes seguintes, o objeto voador atingirá a altura desejada e planará pacificamente ao sabor dos ventos. No caso da nave, seus motores serão acionados para manter a velocidade de cruzeiro adequada para um voo relaxante.
Estava ainda no início de minha carreira profissional, recém-saído dos bancos escolares. Convivi durante anos e ainda convivo com esta alegoria, acompanhando-me nas cidades e moradias por onde passei. Inicialmente, no meu quarto de dormir, mais recentemente, com a saída de casa dos filhos, tenho o luxo de ter um espaço só pra mim a que chamo de escritório. Poderia chamá-lo também de dormitório porque é lá que tenho os meus sonhos mais maduros na vigília da leitura ou da escrita.
Passaram-se anos. Veio a ociosidade profissional.
Num repente, não mais que de repente, num olhar distraído, passei a observar que a gravura apresentava algo diferente. Seu motivo sofreu uma significativa mudança. Mudou de direção e propósito. O objeto mutante agora corre do interior do quadro para fora, na minha direção. A quimera continua lá no alto, inalcançável. Agora a ave/nave procura o pouso, a aterrissagem.
Não mais se esforça em catapultar o pesado corpo. Voa manso, sem grandes ruídos, embora sem dispensar a energia necessária para o controle da descida, deixando-se cair, na esperança de um pouso suave.
"Ave/nave chegando ao fim da jornada"...
(Genserico Encarnação Júnior).
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