segunda-feira, 20 de agosto de 2018

Banda Devassa - "Marina Julia" - Praça Marechal Mauricio Cardoso. Vídeo ...

Banda Devassa - Rio de Janeiro. (Cultura, Esporte e Lazer).


"SUA EMINÊNCIA REVERENDÍSSIMA"
(Crônica - Maio/2014).

Deparei com o prelado na sala de espera do urologista, a quem visitava anualmente. Estávamos sós no aguardo de nossas consultas. Ele chegara primeiro, depois dele seria a minha vez. Se existia outro paciente agendado para depois ainda não havia chegado.

Vestido num terno preto bem cortado, camisa branca sem o tradicional colarinho sacerdotal e sem gravata, esportivamente aberta ao pescoço, o que muito me estranhou, sapatos religiosamente lustrados e meias pretas de cano longo. Completamente descaracterizado. Cumprimentamo-nos com um protocolar bom-dia e nada mais foi dito.

Folheávamos as indefectíveis publicações tão comuns em salas de espera de igual natureza: Veja e Isto é, desprezando Contigo e Caras. Que presença simpática! Os ralos cabelos alvos, a barba bem feita. Seus modos eram elegantes, aliás, sua postura era majestática. Não cruzava as pernas. Eu vigiava-o de soslaio entre uma página e outra que ia virando, fazendo de conta que me entretinha com as revistas.

Como eu tive ímpetos de puxar conversa com Sua Reverendíssima! No entanto, tolhi-me. Gostaria, mui respeitosamente, de fazer algumas perguntas, mas seria muita ousadia de minha parte. As perguntas que não queriam se calar (mas se calaram) seriam: O senhor alguma vez já duvidou de sua fé? Da existência de um Deus Criador, Onipotente, Onipresente, Onisciente? Acredita na vida eterna, na concepção de Cristo conforme pregada por sua religião, no Cristo-Deus, na ressurreição dos mortos?

Em suma, no Credo católico (que eu sei de cor e salteado)? De fato, seria muita petulância. Recolhi-me ao meu ceticismo, à minha ignorância religiosa, ao meu agnosticismo, ao meu ateísmo. Por fim, à minha boa educação e à minha polida compreensão intelectual.

Pensei numa pergunta menos dogmática, provocada por uma dúvida que me assola ultimamente. A religião católica caracteriza-se por perdoar os pecados desde que exista o arrependimento do pecador na confissão; se isso se der, seus pecados serão perdoados.

Muito bem, uma pessoa mata outra e ninguém fica sabendo do crime, a polícia fez suas investigações e nada descobre. Ele vai ao padre faz a sua confissão e a justiça divina perdoa-lhe.
O padre, como fica? Já que o segredo do confessionário é inviolável, fica tudo por isso mesmo, diante da justiça laica? E o compromisso da religião perante a sociedade; qual seria a explicação?

Como foi rico esse momento de "interlocução silenciosa" que tive com o religioso em apenas um quarto de hora! Mesmo porque as respostas ao que eu teria perguntado tão diretamente seriam perfunctórias e não me satisfariam, tenho certeza. Não tão diretas como as perguntas.

As questões religiosas não se cingem aos limites da razão, assim justificam os crentes. Com toda uma vida devotada para a difusão dos princípios católicos não iria ser ali e no ápice de sua carreira eclesiástica que ele iria dizer algo diferente daquilo que eu aprendi no catecismo, no colégio religioso, nos púlpitos das igrejas em centenas de missas a que assisti.

Aí reside o meu interesse pelas coisas religiosas das quais abdiquei e a minha apreciação sempre crítica do tema. Depois, seria no mínimo deselegante incomodar tão importante personalidade, com curiosidades tão chãs e numa situação inapropriada. Afinal fé é fé. Nessa seara as divisões são claras e inconciliáveis: pouca fé e fé demais.

Chegada sua hora, o médico veio até a sala, nos cumprimentou, trocou um caloroso aperto de mão com Sua Eminência e dispensando a secretária, convidou-o pessoalmente, em atenção à sua posição, a entrar na sala de atendimento.

A partir daí os meus pensamentos deram uma guinada, não pensei mais em religião e em assuntos teológicos e metafísicos. Minha cabeça começou a navegar por águas mais turvas, por assuntos mais prosaicos, como nos procedimentos da consulta, "ansioso e tenso na espera de minha vez"...

(Genserico Encarnação Júnior).

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