IGREJA DA PENHA.
FESTA DE NOSSA SENHORA DA PENHA (383 ANOS).
A região que compreende os bairros de Irajá, uma porção de terra de Jacarepaguá, Campo Grande, Engenho Velho, Bonsucesso, Olaria, Ramos, Cascadura, Realengo, Madureira, Anchieta, Pavuna, Penha e Piedade, era parte da Freguesia de Nossa Senhora da Apresentação de Irajá, criada em 1644. No decorrer dos anos, esta região foi desmembrada.
Consta que as terras foram doadas em sesmaria por "Salvador Correia de Sá" em 1568 a "Antonio de França", que construiu o Engenho de Nossa Senhora da Ajuda. A "Sesmaria" era a concessão de terras no Brasil pelo governo português com o intuito de desenvolver a agricultura, a criação de gado e, mais tarde, o extrativismo vegetal, tendo se expandido à cultura do café e do cacau. Ao mesmo tempo, servia a povoar o território e a recompensar nobres, navegadores ou militares por serviços prestados à coroa portuguesa.
No século seguinte, após vários desmembramentos da fazenda, coube ao "Capitão Baltazar de Abreu Cardoso" as terras onde estabelece sua fazenda e ergue uma pequena "Ermida" (Ermida é um templo cristão secundário. Trata-se de uma pequena igreja ou capela, normalmente localizada fora das povoações ou em lugares isolados) no alto do penhasco.
As primeiras ocupações da área da Penha e adjacências que correspondem hoje aos bairros atravessados pela "Estrada de Ferro Leopoldina", predominavam a produção açucareira e de subsistência.
A IGREJA DE NOSSA SENHORA DE FRANÇA.
No "ano de 1635", o Capitão "Baltazar de Abreu Cardoso" edifica no alto da grande rocha uma pequena ermida em louvor a Nossa Senhora do Rosário. Com o passar do tempo, devido sua construção no Penhasco, a invocação passa a ser de "Nossa Senhora da Penha", culto originário do norte da Espanha e introduzido em Portugal no século XVI, que trouxe a devoção para suas colônias.
Consta nos arquivos que a primeira ermida foi edificada de tijolos e tendo vinte palmos de circunferência, um altar-mor arredondado, tendo um arco cruzeiro na frente e na sacristia.
A DEVOÇÃO NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO.
A "devoção" a Nossa Senhora da Penha em cada estado do Brasil e diversos países, aconteceu de forma diferenciada. No Rio de Janeiro, conta-se em narrativa oral que o Capitão Baltazar de Abreu Cardoso tinha por hábito subir a grande pedra para observar sua fazenda. Um dia, descansando ao pé de uma árvore, surgiu uma "cobra peçonhenta" pronta para dar o bote. Ele então Bradou “Valei-me Nossa Senhora”, surge um lagarto predador natural da serpente e a ataca. O Capitão afasta-se do local e em agradecimento ergue no topo da rocha, uma ermida em louvor a Nossa Senhora do Rosário. A notícia espalhou-se rapidamente pela comunidade sobre o milagre de Nossa Senhora do Alto do Penhasco. Provavelmente a partir deste ponto a invocação devocional é substituída.
O CULTO À NOSSA SENHORA DA PENHA DE FRANÇA.
Existem várias narrativas referentes ao culto de Nossa Senhora sob a invocação de "Penha de França". Uma delas diz:
>>> “Antonio Simões, guerreiro do tempo de D. Sebastião, indo para a desastrosa expedição de Alcácer-Quibir, fez promessa de mandar executar dez imagens da Virgem Maria, sob diversas invocações, se conseguisse voltar à pátria. De regresso, cumpriu o voto feito e as imagens foram produzidas. Há quem afirme que sendo ele mesmo o escultor, as fabricou na sua própria oficina procurando logo dar-lhes condigno destino. A uma destas imagens – (a altura o deu o título de Nossa Senhora da Penha de França em atenção à outra que, sob a mesma invocação, se adorava na Espanha”).
>>> Outra versão é a do Padre Colunga que diz em seu livro que Simão Vela, um peregrino francês, no dia 19 de maio de 1934, descobre em Nuestra Señora de Peña de Francia na província de Salamanco – (Espanha, a imagem de Nossa Senhora, tão célebre e cristalina). Daí a invocação de "Nossa Senhora da Penha de França".
VENERÁVEL IRMANDADE DE NOSSA SENHORA DA PENHA DE FRANÇA.
No ano de 1728 foi criada a "Venerável Irmandade" para administrar e cuidar da igreja. E ao longo desses anos foram necessárias várias modificações e ampliações da pequena ermida devido ao enorme número de fiéis. No mesmo ano acrescentaram ao arco cruzeiro voltado para o mar, a nave da igreja, contendo o púlpito e o coro que ficava por cima da porta principal e uma torre e um cruzeiro.
No ano de 1870, a irmandade julga necessário fazer outra igreja. Na demolição foram encontrados os restos mortais do primeiro ermitão que serviu a Irmandade o qual se chamava, "Antonio Ferreira de Souza", falecido em 1782 e o do reverendíssimo Capelão, "Padre Manoel da Silveira Peixoto" que serviu a irmandade desde 1803 à 1839. Hoje, estão sepultados em urnas no Cruzeiro defronte da igreja.
Em maio de 1872, foi inaugurada a nova igreja. Depois, novas obras de reconstrução e embelezamento são iniciadas em 1900 e concluídas em 1902. O então Capelão, Padre "Ricardo Silva", contribuiu muito para o embelezamento da igreja. Com a construção das duas torres que lhe deu um ar mais pomposo, e as pirâmides obra do mestre "Luiz de Morais Junior". Esculturas de "Hugo Wagner", mármores e azulejaria de "Amaral Guimarães & Cia". e, na parte de arquitetura decorativa o trabalho de estucaria, ficou a cargo do artista "Henrique Lavoie".
A partir da década de 20 a igreja sofre, assim, diversos acréscimos como a construção do novo batistério, o gabinete do Capelão entre outras reformas internas que modificaram a sua forma primitiva perdendo sua referência e expressão luso-brasileira.
Hoje, sua arquitetura e decoração, por não ter um estilo único a classificamos como "estilo eclético", devido a várias interferências e acréscimos de estilos. Porém, por ser um patrimônio além do material, foi tombada pela Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro em 21/06/1990, tendo como número de decreto 9413 – 1990.
SEPULTURA - 1:
Restos mortaes do Padre Manoel da Silvaira Peixoto, Capellão de 1803 a 1839. Transferido da sachristia em 1870, onde foi sepultado, e com a reconstrução da igreja para aqui removido em 1902... (Respeitada a escrita original).
SEPULTURA - 2:
“Restos mortais do Ermitão Antonio Ferreira de Souza agenciador de esmolas para esta igreja em 1778.
Sepultado na “sachristia” em 1782 foi “d'ahi” removido em 1870, e com a reconstrução da Igreja para aqui transferido em 1902”... (Respeitada a escrita original).
A ESCADARIA.
A história oral diz que uma devota, "Dona Maria Barbosa" e seu marido, desejosos por ter um filho fizeram uma promessa a Nossa Senhora da Penha, caso conseguissem realizar seu desejo mandariam construir uma escada para facilitar o acesso dos fiéis à igreja. Com o desejo atendido, em 1817 começa a ser talhado o duro granito e no ano de 1819, com 365 degraus, é inaugurada a escadaria.
Devido ao desgaste natural e excesso de visitantes em romaria, os degraus tornaram-se escorregadios e por bem, a Irmandade, no ano de 1913, efetua a reforma total da escadaria. Houve o alargamento e mais tarde o acréscimo de dezessete degraus, sempre respeitando o traçado original.
>>> "Hoje, a escadaria de acesso à igreja possui 382 degraus".
A FESTA.
Segundo o registro de "Frei Agostinho de Santa Maria", as festas em louvor a Nossa Senhora no Rio de Janeiro tem início por volta do ano de 1713, aos moldes da festa tipicamente portuguesa. As festividades aconteciam em diferentes datas e a partir de 1891, passa a ter seu início no "primeiro domingo de outubro", mês da festa litúrgica de Nossa Senhora do Rosário, primeira imagem a ocupar o trono da igreja.
A grande presença dos romeiros levou ao alongamento da festa, que acontece todos os domingos de outubro. Sempre com barraquinhas, espetáculos musicais que a princípio eram só portugueses, e com o tempo chega a ser o "palco de disputas de sambas" e "marchinhas carnavalescas", com a presença de nomes consagrados da música popular brasileira. Foi na Penha que "Sinhô" e "Donga" lançam o primeiro samba carioca:
>>> “Pelo Telefone”. (Da mesma forma, é na Penha que nasce o samba de partido-alto).
A igreja recebia caravanas de romeiros que após os atos religiosos, sentavam sob grandes árvores para "picnics". Jogavam petecas, usavam cordões de deliciosas balas e saboreavam as maravilhosas roscas portuguesas.
"Em oito de setembro de 1816, D. João VI oficializa a Festa de Nossa Senhora da Penha".
Hoje, a festa tem início no sábado antes do primeiro domingo de outubro com a "lavagem da escadaria" por sugestão do Capelão Pe "Serafim Fernandes", desde 1999.
A lavagem da escadaria é um ato de carinho e amor à Nossa Senhora da Penha, que conta com a participação dos fiéis, alunos e moradores das comunidades da Penha, com muita alegria e confraternização.
No encerramento da festa contamos sempre com a presença de um grande e belíssimo espetáculo de música.
A "Festa da Penha", como todos a chamam, é considerada a maior festa popular religiosa da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, com mais de 300 anos de existência.
OS CORETOS.
Era de praxe nas festividades de Nossa Senhora a presença de bandas de música. Havia um coreto em frente a Casa do Romeiros e outro na lateral, o que tudo indica, não eram permanentes. Então, a Mesa Administrativa de 1923 inaugura no Largo dos Romeiros dois coretos fixos com bases octogonais de pedra e a parte superior de madeira. No topo tremulava uma bandeira do Brasil e no outro uma bandeira de Portugal. Hoje, ao completar noventa anos, os coretos foram restaurados voltando à cor original e foram acrescidos elementos que haviam sido retirados.
(COLABORAÇÃO: Banda Devassa - Rio de Janeiro - Outubro de 2018).
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